sexta-feira, junho 02, 2006

Hoje, fiz-me Homem

Os mais perversos leitores pensarão de imediato que perdi a virgindade. Não é nada disso. Terei que esperar mais uns anos para que tal milagre aconteça. Também não escrevi um livro nem plantei uma árvore. Não ajudei criancinhas pobres, nem acabei o meu curso universitário. Não arranjei emprego, nem deixei de roer as unhas.

Hoje, atravessei o Bairro dos Ciganos a pé! Sozinho!

Vinte e cinco anos e meio depois de ter sido posto neste mundo, fiz-me Homem.

E porque achei que o momento merecia um toque especial, procurei na panóplia de mp3 de bolso, a música mais anúncio-de-penso-higiénico-sinto-me-bem-e-não-quero-saber-de-mais-nada, que tinha. Encontrei. Era a música mais alegre que podia haver para a circunstância: “We Are The Sleepyheads” de Belle And Sebastian. Pus os phones (este acto, só por si, é fascinante) para ignorar qualquer som circundante - por exemplo “passái o diñero, ó primo” - e segui feliz da vida.

Qualquer tom xenófobo neste texto é pura especulação. O bairro dos ciganos é contíguo ao meu (bairro dos branquinhos). Desde criança que me habituei a brincar com ciganos, e tal facto nunca me causou muito incómodo, à parte do cheiro, claro. Mas eram os ciganos que vinham brincar para a minha porta. Ir brincar para a porta dos ciganos incluía uma sova, roubo de todos os pertences e um valente raspanete ao chegar a casa.
Assim, a brincadeira sempre ficou pelo meu bairro.

Mas hoje, não há fronteiras. Eu uni os dois povos: o EU e o Eles.

sábado, maio 20, 2006

Tuga











Portugal entrou hoje para o Guinness World Records como o país que mais tenta entrar para o Guinness World Records.

segunda-feira, maio 01, 2006

Dia do trabalhador

Perguntas de um Operário Letrado

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruida,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Sò tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Indias
Sózinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitòria.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas

Bertold Brecht

terça-feira, abril 25, 2006

Sons de Abril



"Grândola Vila Morena (Zeca Afonso)"
Charlie Haden & Carla Bley
Álbum: Ballad Of The Fallen CD
ECM Records

segunda-feira, abril 24, 2006

25 de Abril Sempre!!!



Letra para um Hino

É possível falar sem um nó na garganta.
É possível amar sem que venham proibir.
É possível correr sem que seja a fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão.
É possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros.
Se te apetece dizer não, grita comigo: não!

É possível viver de outro modo.
É possível transformar em arma a tua mão.
É possível viver o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre, livre, livre.

Manuel Alegre, O Canto e as Armas

sábado, abril 22, 2006

Tuga-Light

Um aplauso a todos os deputados com faltas injustificadas.
Um aplauso a toda a gente que diz “s'láda” em vez de "salada".
Um aplauso ao Paulo Portas que, afinal, é filiado no PSD/Porto.
Um aplauso a quem roubou a urna de voto do CDS-PP/Oeiras.
Um aplauso a todos os blogues que, tal como este, só servem para masturbação intelectual.
Um aplauso ao anúncio que enaltece os aplausos.

segunda-feira, março 27, 2006

Tuga


Compreendo a angústia de quem foi deportado do Canadá. Compreendo que lá se tenha deixado muitos bens, amizades, familiares, etc. Compreendo a dor. A sério que compreendo. Mas…

Estes emigrantes não foram deportados por mais nenhum motivo senão o facto de estarem ilegais.

Não havendo “papéis”, o Tuga desenrrasca-se. O tuga é mais esperto do que isso. Invoca o estatuto de refugiado. E como é esperto só para algumas coisas, não sabe tratar do processo. Então paga milhares de dólares a uma “mánágére, prontes, uma conselheira…” para lhe tratar do processo. No final, a conselheira não tratou de nada, ou chega com a triste notícia, pasme-se, que Portugal não tem conflitos étnicos/religiosos, nem está em guerra civil, logo não se pode invocar o estatuto de refugiado. Não tendo estatuto nem papeis, pasme-se, o Canadá notifica os emigrantes que têm que abandonar o país. O governo anterior tinha “prometido” que iria resolver os problemas destes emigrantes. Esse governo, pasme-se, só durou um ano. Agora é um governo dito Conservador. Claro que os emigrantes ilegais, estando como tão bem diz a palavra ILEGAIS, têm que, pasme-se, sair do país. Países estes desenvolvidos que fazem estas sacanagens: identificam, notificam, e pagam a saída a emigrantes ilegais. Sacripantas!

Se fosse cá: vaitembora ó preto! E alguns desses, por acaso, mereciam o estatuto de refugiado.

A pergunta que me fica é se por causa de 200 chico-espertos, ficaram 200 realmente refugiados impedidos de entrar ou permanecer no país. Não sei, nem se saberá.

Para os que voltaram: bem-vindos a Portugal. Com essa atitude lá fora, cá dentro, vão-se dar muito bem….

sábado, março 25, 2006

O pior post de sempre

Zézé camarinha discursou esta semana na Assembleia-geral das Nações Unidas.
Depois do seu discurso sobre a falta de gajedo na praia da Rocha, agarrou em duas Txutxas, e dirigiu-se para a festa que se realizou nessa noite.



terça-feira, março 21, 2006

Cool-tura para o povo X - Dia mundial da poesia

Há sete anos, um amigo deu-me a conhecer este poema. Hoje, reencontrei-o.

Vivam Apenas

Vivam, apenas
Sejam bons como o sol.
Livres como o vento.
Naturais como as fontes.

Imitem as árvores dos caminhos
que dão flores e frutos
sem complicações.
Mas não queiram convencer os cardos
e transformar os espinhos
em rosas e canções.

E principalmente não pensem na morte.
Não sofram por causa dos cadáveres
que só são belos
quando se desenham na terra em flores.

Vivam, apenas.
A morte é para os mortos!

José Gomes Ferreira

sexta-feira, março 17, 2006

Cool-tura para o povo IX

Amador sem coisa amada

Resolvi andar na rua
com os olhos postos no chão.

Quem me quiser que me chame
ou que me toque com a mão.

Quando a angústia embaciar
de tédio os olhos vidrados,
olharei para os prédios altos,para as telhas dos telhados.

Amador sem coisa amada,
aprendiz colegial.
Sou amador da existência,
não chego a profissional.
António Gedeão